segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Doutora, tenho gastrite!

Muitos paciente me procuram com uma queixa simples, queimação no estômago. 
"É uma azia que sempre me incomoda após a alimentação e as vezes até de estômago vazio"

Alguns chegam com o resultado de uma Endoscopia dizendo "gastrite enantematosa leve", outros já tomam o tal do Omeprazol por conta própria e resolvem logo o problema.

Mas poucos se perguntam, por que estou com essa queimação?  - Ah, é o nervoso doutora, minha gastrite é nervosa, é uma resposta bem comum.
Pode até ter causa nervosa, aliás, as emoções são causa de muitos sintomas que incomodam demais os pacientes e são negligenciados por muitos médicos. Futuramente falarei melhor disso. Então vamos ao Físico. 

Com nervosismo ou não, a principal causa de queimação no estômago é a hipocloridria.

O nosso estômago é revestido por células que formam a mucosa gástrica, nesta mucosa existem células produtoras de ácido clorídrico (HCL), que, erroneamente é tido como o vilão causador da queimação do estômago e que deve ser combatido a todo custo.  Na tentativa de neutralizar o HCL, recorremos comumente aos antiácidos, omeprazol ou ranitidina. Já vi paciente chegando com os 3 ao mesmo tempo.  Tá certo, você deve estar pensando: " ótimo, funciona mesmo, minha dor passa".  Acontece que passa e volta, tão logo o efeito do medicamento passe e o ciclo se repete, te fazendo escravo do omeprazol pra sempre.

Já a medicina funcional tem uma abordagem diferente, que prioriza a correção do desequilíbrio, evitando ao máximo o uso crônico de medicamentos.

A mucosa gástrica não possui apenas células secretoras de HCL, possui também células produtoras de muco rico em bicarbonato (te soa familiar? bicarbonato?), justamente para neutralizar o HCL, portanto, essas células desempenham um papel importante na proteção da mucosa gástrica.  Só que, adivinhem:  o estímulo para a produção desse muco é o próprio HCL!!

Juntando os informações, a secreção normal de HCL estimula a proteção da mucosa gástrica   Este é o ponto onde quero chegar; a maioria dos pacientes cuja causa da gastrite é hipocloridria (pouco HCL), acabam ficando sem proteção da mucosa. E aí, mediante algum estímulo de secreção de HCL-  como nervosismo -, a mucosa não tem a proteção necessária e vai sentir o poder do ácido que está lá para digerir os alimentos.

Para esses pacientes, o omeprazol é extremamente prejudicial, pois acaba-se entrando num ciclo vicioso:  pouco HCL - omeprazol - diminuo ainda mais a proteção da minha mucosa.  Os riscos disso são muitos já que o HCL, além de ser fundamental no processo digestivo, é uma das primeiras defesa do nosso corpo a bactérias prejudiciais (inclua H pylori) e nesse ambiente pouco ácido pode acarretar no inicio de outros distúrbios gastrointestinais mais graves. 

Nesse caso, uma solução é introduzir um ácido fraco para estimular a própria mucosa a produzir sua  proteção. Pode-se fazer um teste caseiro com limão: diariamente, em jejum, tomar na proporção de 1:1, uma colher de chá de limão com água. Se não doer na hora de tomar, após 3 dias aumente para 2 colheres, após 3 dias para 3 colheres e por mais 3 dias por 1 colher de sopa.  

Esse simples teste, quando bem tolerado, pode ser suficiente para restaurar o equilíbrio entre a produção de ácido e a proteção da mucosa. É claro, há pacientes que sofrem de hipercloridria (muito HCL) e, nessa situação, o limão não é uma opção.

Outra causa de gastrite é o uso crônico de anti-inflamatórios e AAS. Tais medicamentos, por mecanismos diferentes do que eu citei,  inibem a proteção da mucosa, e então o omeprazol acaba sendo única alternativa.   Só que anti-inflamatórios também não é uma abordagem funcional.  Temos que pensar, será que esses anti-inflamatórios são realmente necessários?? qual a causa da dor?? quais as alternativas ao uso de analgésicos?  Por isso ressalto os riscos da auto-medicação e a importância de sempre ser acompanhado por um médico confiança.